Biro-Biro

Desde o falecimento de seu pai, o dono de um boteco na periferia da cidade, que o prédio não foi mais o mesmo. Na parte que cabia à Dona Ruth, veio o papagaio que ficava no bar de seu pai, o Famoso Biro Biro.

Criado no bar, Biro Biro conhecia todos os palavrões possíveis e imaginários aprendidos em vários anos de convivência no poleiro da entrada do estabelecimento comercial.

Assobiava o hino do Corinthians quase inteiro, quando ouvia o hino gritava: Timão e o, Timão e o …Tudo isso enquanto o hino tocava, sem parar e aos berros. Quando ouvia o hino do Palmeiras, lançava um rol de palavrões de tirar as crianças da sala. No do São Paulo, “Bambi” era o xingamento mais infantil.

Voltado para a piscina não parava de gritar: Gostosa, casa comigo que te dou um tanquinho. Só respeitava o porteiro, que pelo uniforme, era chamado de capitão.

No começo Biro Biro era atração, todos os condôminos o achavam engraçado. Quando acordava pedia café, na hora do almoço queria Campari e no final da tarde queria ver o Datena.

Com o passar do tempo os vizinhos começaram a achar complicado, pois chamava uma vizinha de Vaca, outro de Corno, o mocinho que fazia balé, de São Paulino Boiola e assim por diante, para cada vizinho lançava um apelido que, com toda certeza aprenderá nos anos que passou pendurado no Bar de seu dono.

Porém as reclamações começaram a chegar ao Síndico, às vezes de forma oral, outras registradas no livro de ocorrência, até que Dona Ruth foi chamada para uma reunião com os demais condôminos, e o problema era o Biro Biro.

O que fazer com o Biro Biro? Reeduca –lo seria impossível pois já tinha certa idade, mandar calar a boca e já vinha um rosário de palavrões. Até que um dia Dona Ruth precisou viajar e teve que deixar o Biro Biro na casa de sua empregada e dai viria a solução, deixar para sempre o papagaio aos cuidados de sua auxiliar.

Porém, sua secretária para assuntos domésticos, morava vizinha a uma creche municipal e o problema só mudou de endereço. No primeiro dia, Biro Biro xingou todas as professoras de “vaca”, o diretor de            “Viado”, o caseiro de “corno” e todas as crianças enriqueceram seus vocabulário com uma centena de palavrões.

No dia seguinte Biro Biro foi engaiolado e levado a uma instituição protetora de animais, ainda hoje grita que é inocente pede para leva –lo ao bar mais próximo e implora ajuda para o Datena livra – lo da prisão, que por sinal será bem longe do convívio social.

Por Dr. José Miguel Simão, advogado e cronista

Texto publicado na 87ª edição da revista Portal dos Condomínios

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