Linguagem e Comportamento Infantil

Nós, seres humanos contamos com a linguagem verbal para auxiliar em nossa expressão de pensamentos, aspecto único entre todos os animais existentes.

 Sabemos que diversas espécies apresentam algum tipo de linguagem, entretanto, apenas o ser humano é dotado da capacidade de falar, expressar suas idéias por meio da linguagem verbal e também escrita. Podemos também fazer uso de outras linguagens, como a corporal/gestual, mas mesmo essas, estão fortemente ligadas ao que temos processado internamente como linguagem, aspectos aprendidos culturalmente e pela nossa capacidade cognitiva.

A linguagem é a capacidade mais fantástica do ser humano, ela nos diferencia, nos marca, nos torna únicos, soberanos entre os animais; é de todas as habilidades neurológicas a mais complexa, pois envolve capacidades cognitivas, motoras, sensitivas e emocionais. Podemos dizer que se fossemos comparados a um carro, nós humanos seríamos o top de linha.

Utilizamos linguagem desde muito cedo em nossa vida; inicialmente como forma simples de expressão de nossos desejos de sobrevivência, depois, através dos vínculos estabelecidos e das informações e estimulações trazidas de figuras significativas (pai, mãe, avós, cuidadores) o pensamento vai se estruturando num código lingüístico e num prazo breve de um ano, já somos capazes de iniciar nossas verbalizações mais diretas, chamando mamãe, papai, expressando a fome, sede e repetindo infinitas combinações de sons que formarão novas palavras.

 Aos 3 anos já apresentamos um conteúdo imenso de palavras, somos capazes de realizar frases complexas e cantamos pequenas músicas com adequado ritmo, melodia e letra. Mesmo que ainda nessa fase possamos ter alguns erros de pronuncia, somos plenos na capacidade de nos fazer entender pelo outro.

O pensamento nessa fase é rico de simbolismos e processos imaginativos e associativos que nos ajudam a compreender e copiar o meio que nos cerca. Desenvolvendo esses aspectos, (aparentemente apenas cognitivos) estamos também nos educando para um outro componente: nosso comportamentoem sociedade. Quantomais formos capazes de utilizarmos nossa expressão verbal para o que sentimos ou desejamos, menor será a necessidade de reações físicas inadequadas.

È fundamental que os pais e adultos que convivam com as crianças auxiliem para essa melhora da capacidade verbal como forma de controle do comportamento, pois isso facilitará o convívio da criança no meio social, bem como ensinará a lidar melhor com suas reações emocionais.

Vejamos esse exemplo:

 

 

Paulo tem 2 anos e não consegue montar um jogo de encaixe, então se levanta, joga tudo pelos ares e começa a chorar e ter acesso de raiva. Sua mãe que não estava presente no exato momento do acontecido, ao escutar a gritaria, entra na sala e pergunta o que aconteceu.

 A criança ainda não é capaz de expressar corretamente o que houve e também o que a deixou frustrada e nervosa, então continua a chorar e gritar. A mãe se irrita e dá um chacoalhar para que ela pare com aquele comportamento. Nesse momento a criança chora ainda mais e a mãe se irrita ainda mais…Ciclo vicioso cruel que não ajudará a criança, além de fortalecer a idéia de que quando nos irritamos, temos como resposta ações motoras.

 Seria mais produtivo que mãe em vez de questionar  sobre o comportamento da criança, buscasse auxiliá-la, sendo cúmplice de seu sentimento dizendo: “Puxa, você estava brincando tão bem, que pena que agora está triste, posso brincar com você se quiser”.

Nesse momento a criança se sentiria acolhida em seus sentimentos e encontraria uma forma de aliviar sua frustração sem reações exacerbadas. Talvez até pegasse o jogo e mostrasse para a mãe, trazendo a informação que era isso que havia causado sua explosão de raiva. A mãe novamente como intérprete da criança, poderia dizer : “AH! Então foi esse brinquedo que deixou você com tanta raiva hein?! Nem sempre as coisas dão certo, isso realmente dá muita raiva, mas vamos tentar novamente, é assim que se aprende”. Ou,então dizer:” Vamos brincar de outra coisa até você se acalmar e depois tentamos montar esse jogo novamente”.

É fundamental que respeitemos os sentimentos e se possível os transformemos em palavras, dando sentido aos acontecimentos.

Também é importante que ao traduzir um determinado comportamento em palavras, evitemos julgamentos ou sermões moralistas, mas que deixemos claro que respeitamos e compreendemos os sentimentos, entretanto não iremos permitir atitudes e ações inadequadas.

 Usar uma linguagem clara, direta e sem dupla informação, expressando também seus sentimentos com relação ao acontecido, ajudará a criança a compreender o certo e errado, mesmo que num primeiro momento ela aparentemente ignore a informação.

É importante que os pais não tentem esconder que também estão descontentes ou até com profunda irritação por determinado comportamento da criança, pois assim a criança também aprenderá a “ler” corretamente os sentimentos envolvidos e a informação se torna mais verdadeira.

Outra situação: Uma criança de 4 anos chuta seu cãozinho como forma de brincadeira. A mãe vê a cena e diz “ Não faça isso meu docinho, não  chute seu cachorro que ele fica triste com você”. Essa não é uma forma adequada de limitar o comportamento da criança, pois, cachorros não ficam tristes e sim bravos e até violentos como forma de defesa ao serem agredidos, dessa forma, usar uma linguagem mais clara e firme resulta numa limitação mais efetiva e compreendida pela criança. “Não chute o cachorro, ele não é bola. Nós não devemos chutar os animais, se você quer chutar algo para brincar, pegue a bola.” Ou dizer “ Se você está com raiva eu entendo, mas você não pode chutar o cachorro, ele poderá morder você.”

 Se necessário segurar firme o braço da criança e afastá-la do cão, que seja feito, mas não devemos permitir atos cruéis aos animais.

Em resumo, ao educar a criança na linguagem, aprendemos a nos educar e a controlar nossas ações e talvez esse seja o maior desafio. Compreender e respeitar o desejo alheio quando ele difere do nosso e agirmos de forma coerente com as repreensões que são necessárias, não é tarefa fácil, mas devemos tentar sempre.

Gosto muito de usar algumas frases com meus filhos que costumeiramente gritam “eu quero”, para inúmeras coisas: Meu filho, compreendo plenamente o que  você quer, na realidade você tem todo direito de querer tudo, mas, na vida não podemos ter tudo, temos que escolher, ou simplesmente digo: “compreendo o que você quer, mas agora não é possível”.

A educação é a arte de ensinar que não devemos viver apenas pelo principio do prazer. Que na vida não fazemos ou agimos somente pelos nossos desejos e vontades, mas, fazemos o que tem que ser feito se quisermos ter um ambiente melhor ao nosso redor.

Sei que é uma dura lição a ser aprendida por eles (meus filhos) e também por mim, mas, juntos vamos lidando com nossos desejos frustrados e às vezes impossíveis de serem realizados, nossas raivas, tristezas, angústias e todos os demais sentimentos que diariamente participam de nossas vidas.

Acredito que de todas as ferramentas que podemos escolher para educar, a linguagem é a mais poderosa e a única realmente capaz de nos marcar, façamos então marcas positivas para que nossas crianças sejam realmente felizes e seguras.

Por, Susana Bueno de Souza – Fonoaudióloga e Psicopedagoga –CRFa 5932/SP

Texto publicado na 89ª edição da revista Portal dos Condomínios

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